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O que eu aprendi do sexo gay: misoginia e homofobia

Por Simom Moritz 

Eu não sou quieto durante o sexo. Eu comunico meus desejos e peço o mesmo de meus parceiros. Acredito que isso não só cria um ambiente sexual seguro, mas também contribui para uma experiência mais prazerosa para todos. Se eu emito sons que não são palavras, isso mais ou menos significa que eu estou me divertindo. As pessoas geralmente respondem bem a esse tipo de resposta não verbal; eu somente tive uma pessoa que se opusesse ao meu uso de expressões não verbais, e esse foi o Peter.

Peter é um homem gay com quem eu dormi uma vez. Eu o conheci num bar gay quando eu morava em Nova Iorque, e eu achava que ele era perfeito. Ele trabalhava com jovens homossexuais desabrigados. Ele tinha um cão. Ele era um pouco mais alto que a média, robusto, usava jeans, uma camiseta e um tênis Puma de cano alto. Ele tinha barba. Ele dizia coisas como “Você é tão diferente das pessoas de sua idade.” (ele tinha onze anos a mais que eu) e “Eu nunca vou pra casa de alguém na noite em que eu o conheço”. Quando ele veio para casa comigo e nós estávamos nus em minha cama, ele beijou meu pescoço e eu gemi, num tom alto e resfolegante. Ele parou, olhou-me nos olhos e disse “Não faça isso. É coisa de bicha”.

Isso faz muitos anos, e eu não havia ainda aprendido que pessoas como Peter devem ser, ou ignoradas, ou de quem se deve rir, ou ensinadas. Então eu me tornei a caricatura de “não bicha”: eu urrava (não mais gemia), eu fingia não estar magoado pelo que ele disse (sentimentos são para garotas, como eu lembro de ter aprendido na infância), e tentava agir da maneira mais masculina possível, porque isso era o oposto de ser bicha, o oposto do gay feminino que gesticula, fala rápido num tom alto e diz “meu amor”. Eu me tornei tolo dessa forma porque eu queria que Peter me amasse.

Ele não apareceu no nosso próximo encontro e eu nunca mais ouvi falar dele.

Tendo eventualmente superado o estado típico de sentir raiva de mim mesmo, pensando “O que eu fiz de errado?”, eu me perguntei “O que significa Peter ter me chamado de bicha por expressar prazer?”. Então eu aprendi que pessoas como Peter são parte de um problema ainda maior: misoginia disseminada.

Tipicamente dizemos que “viado”, “maricas”, “mulherzinha”, “pintosa” e “bicha” são palavras homofóbicas, e apesar de elas serem usadas para perpetuar a homofobia, elas não são em si homofóbicas; o uso delas como insulto geralmente se direciona àqueles com o sexo masculino que não agem de maneira suficientemente masculina. Elas premiam a masculinidade ao demonizar a feminilidade. As raízes disso provavelmente estão numa forma antiquada e essencialista de entender o gênero, na qual as mulheres são biologicamente o sexo mais fraco e patético. Hoje sabemos, entretanto, que, além de ser totalmente ofensivo, o essencialismo de gênero é de alguma forma uma babaquice, porque as mulheres podem votar, trabalhar e colocar os homens em situação de submissão e os homens podem cozinhar, fazer faxina e tomar conta das crianças. Apesar de ter sido relativamente fácil desconstruir a misoginia no abuso de Peter, chegar à raiz de porque um homem, enquanto deitado nu com outro homem, beijando-o, chamaria a expressão de prazer desse homem de “muito gay” é um assunto muito mais complicado. Eu sugeriria que Peter me chamar de bicha é parte de uma herança cultural homossexual maior.

Homossexuais vivem numa constante narrativa de luta; hoje nós lutamos pelo casamento legalmente reconhecido, em 2003 lutávamos pelo direito de sexo consensual, mas 60 anos atrás os protagonistas homossexuais lutavam pelo direito de existir em público ou em privado. Para conseguir esses direitos, eles usaram uma estratégia efetiva chamada assimilação, a qual ditava que homossexuais parecessem e agissem o máximo possível com heterossexuais. A Mattachine Society e a Daughters of Bilitis intencionalmente fizeram isso na década de 1950, e essa era provavelmente a opção mais agressiva dizer “nós somos normais, assim como vocês” num tempo em que a polícia era encorajada a fazer batidas em bares gays, prender clientes e publicar seus nomes e rostos no jornal no dia seguinte. “Assim como vocês”, todavia, apagava os homossexuais de cor do movimento e invisibilizava as pessoas trans, porque “assim como vocês” se referia a homens brancos no poder e a suas esposas, os quais tinham o controle de validar legalmente qualquer identidade homossexual. A assimilação foi bem sucedida no que tange à discriminação contra pessoas LGBT ser agora ilegal de várias formas, mas ela também criou um “homem gay aceitável”, ele era branco, masculino e certamente não dizia “meu amor”. Isso também criou e validou uma desculpa favorita para a intolerância antigay: “eu não tenho problemas com pessoas gays, desde que elas não exibam isso”, porque repentinamente houve pessoas gays que não eram “normais”. Homens gays “normais” hoje imitam a desculpa heterossexual para a intolerância ao culpar gays “anormais” pelos maus tratos com os gays no geral.

Peter é um homem gay “normal”, então quando meu comportamento começou a se afastar do “normal”, ele me reprimiu da mesma forma que policiais, professores de educação física ou os pais deveriam ter feito nos anos de 1950 (e hoje, honestamente). 

Apesar de os anos 1950 terem passado há 60 anos, a atitude se mantém disseminada: repare em uma num site de encontros gay ou num aplicativo de smartphone e você verá nossa deturpada herança como “preferências” baseadas na hierarquia de quem consegue passar como um homem heterossexual bem sucedido: “procurando somente por masculinos, musculosos, que não sejam afeminados, e somente brancos”. Apesar da ironia de que nenhum de nós seja heterossexual não me escapar, eu gostaria de focar mais em como isso é regressivo; nós estamos literalmente contribuindo para a nossa própria opressão ao sustentar essa herança bizarra de misoginia, criada nos anos 1950.

Então vamos fazer a vida de todos os homossexuais mais fáceis e parar de imitar as piores partes do heterossesxismo. Quem sabe? Nós até poderíamos começar a apoiar uns aos outros. Quão revolucionário.

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Em: http://www.huffingtonpost.com/simon-moritz/what-i-learned-from-gay-sex-misogyny-and-homophobia_b_3092418.html

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